Conservador… ma non troppo

Quem se arrisca a falar quem levará ou não o Prêmio Nobel corre sempre o risco de parecer idiota. Ano passado, um jornalista conseguiu a façanha de escrever um texto intitulado Quem ganhará o Prêmio Nobel de Literatura 2016? Não será Bob Dylan, com certeza. Bem… dá para imaginar a cara dele quando saiu o resultado. Não tenho poderes de adivinhação para ser tão assertivo, mas tenho meus palpites.

Quem levará o prêmio este ano? Antes das “predições”, é bom elencar alguns fatos.

Quando Sara Danius assumiu a presidência da Academia Sueca em 2015, algo ali mudou, pois as duas premiações seguintes saíram da zona de conforto do Prêmio. Desde a premiação de Wislawa Szymborska em 1996, a academia vinha demonstrando preferência por romancistas. Exceções para os dramaturgos Gao Xingjian e Harold Pinter, que levaram o galardão em 2000 e 2005, respectivamente; para o poeta Tomas Transtromer, premiado em 2011; e para a contista Alice Munro, nobelizada em 2013.

Bastou Danius assumir que, em 2015, tivemos uma jornalista premiada por seus inusitados livros de depoimentos. Em 2016, tivemos um letrista. O que esperar de 2017?

Devido aos desgastes da Academia nos dois últimos anos, uma opção conservadora é esperada. Vendo o histórico recente das premiações, poderíamos pensar em um ficcionista, mas devemos ter em mente que a Academia mudou. Não podemos tomar os últimos vinte anos como o único critério comparativo. Ao analisarmos a longa lista de premiados nos últimos 117 anos, veremos que uma opção conservadora pode significar também um ensaísta, um poeta ou um dramaturgo. As nomeações de Theodor Mommsen, Rudolf Eucken, Henri Bergson, Bertrand Russell, Winston Churchill e Jean-Paul Sartre mostram que intelectuais também eram nomeados para além dos domínios da poesia e da narração. Penso que a Academia esteja retornando a uma visão mais abrangente do significado de literatura.

Image Of Alfred Nobel On A Window : Foto de stock

Para onde ir, então? Vou arriscar duas listas de apostas, deixando desde já claro que há muitos autores que desconheço ou que nunca li – mas que concorrem ao prêmio – e que há muitos que ficarão de fora pela simples questão logística (caso contrário, faria uma lista inútil com cinquenta nomes). Minhas listas são definidas pelo restrito cardápio de escritores que conheço. Uma delas será um tanto surrealista, mas expressará meus favoritos. A outra mais realista, embora não menos tendenciosa. Considerando que a Academia não é mais a mesma, podemos ser um pouco mais criativos no significado de “opção conservadora”. Para 2017, aí vão dezessete apostas.

Rea-Lista

Claudio Magris: romancista e ensaísta. Sua visão do mundo europeu ao mesmo tempo lúcida e poética é um prato cheio para torná-lo uma opção segura de premiação.

Elena Poniatowska: escritora e jornalista, destaca-se como um nome de peso na literatura não-ficcional. Não bastasse isso, sua obra de ficção também é bem respeitada. Seria inusitado que o jornalismo levasse dois prêmios em uma só década, mas penso que a Academia vem superando sua aversão à não-ficção.

António Lobo Antunes: é um daqueles pelos quais sempre torço. O fato de sua obra consistir quase que inteiramente de romances (embora muitos não se encaixem no conceito tradicional de romance) faz dele uma aposta real este ano.

Ismail Kadaré: o autor de “Dossiê H” e “Abril Despedaçado” é um dos favoritos e tem sérias chances de levar o Prêmio. Romancista galardoado com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Literatura e o Prêmio Jerusalém, seu nome vem sendo esperado nos anúncios há muitos anos. Sua luta contra o totalitarismo certamente entra em evidência nestes tempos.

George Steiner: eu sei, ele é um crítico. Mas quem já leu algum de seus ensaios sabe que ele é um escritor talentoso. Polímata, Steiner é dono de uma vasta cultura geral que esmiúça a literatura e o mundo numa prosa elegante e dialoga com domínios diferentes, como o científico e o filosófico sem dificuldade. Seria uma premiação menos óbvia, mas não há como negar que ele a mereça. Não apenas por sua contribuição para a análise literária, mas para a literatura em si.

Adonis: desde a Primavera Árabe, o poeta sírio sempre aparece nas listas de apostas. A crise de refugiados e os atuais problemas da Síria não deixam de levantar a atenção para esse gigante da poesia.

Ursula K Le Guin: o Nobel pode querer inovar sem levantar muita polêmica. Le Guin é “a escolha”, nesse caso. Apesar de atuar na fantasia e na ficção científica, ela é respeitadíssima dentro da alta literatura, já tendo arrancado elogios de Harold Bloom. Pessoalmente, torço por ela. Seria uma premiação inusitada. Mas sem polêmicas.

Ngugi Wa Thiong’o: favorito para ganhar o prêmio, lidera as listas de apostas. Seria uma nomeação segura e sem surpresas, exceto, claro, pelo fato de Thiong’o ser africano (seria o quinto africano) e negro (seria apenas o terceiro negro a levar o Nobel de literatura, a última tendo sido Toni Morrison, em 1993). Literariamente falando, nenhuma surpresa, a obra do queniano está bem assentada no cânone literário. Portanto, ele entra em qualquer lista séria.

Nicanor Parra: com cento e três anos de idade, talvez seja um pouco sonhador por o poeta na versão realista, já que ele tem sido ignorado por décadas. Mas depois de duas nomeações polêmicas, premiar um antigo candidato latino americano consagrado pela crítica e pelo público faz todo o sentido.

Haruki Murakami: muitos consideram irrealista que Murakami leve o prêmio. Muito “best-seller”. Mas a verdade é que Murakami é um candidato bem realista. Vale lembrar que ele já levou o Prêmio Jerusalém e que há muita gente dentro da alta literatura que o apoia (como Svetlana Aleksievitch, por exemplo). Mais conhecido como romancista, o japonês também é ensaísta e contista. Paradoxalmente, seria uma escolha conservadora, mas muito polêmica.

Surrea-Lista

Penso que Margaret Atwood e Ian McEwan seriam apostas bem realistas, mas não acho provável que uma escritora canadense ganhe o prêmio tão próximo de Alice Munro, e o caso de McEwan consiste mais numa economia de escritores em língua inglesa na outra lista do que em alguma razão específica contra ele. Por isso, os dois encabeçam a surrea-lista, por não serem apostas tão arriscadas assim.

Margaret Atwood: normalmente é apresentada como uma canadense que fez livros memoráveis com um leve toque de ficção especulativa. Apesar desse slogan, Atwood, na verdade, é uma escritora diversificada, tendo escrito livros bem diferentes entre si. Na sua obra, encontramos romances realistas (“Olho de Gato”), poemas, e releituras de clássicos (com seu “A Odisseia de Penélope”). É uma das favoritas nas listas de apostas e não dá para ignorá-la no contexto do prêmio, mas não é provável que o leve esse ano.

Ian McEwan: talvez eu esteja divagando, pois é inegável que McEwan é uma das vozes mais seguras para se premiar. Sua prosa é inteligente, inventiva e sempre tangencia problemas sociais, sejam históricos, judiciais, médicos ou de gênero. Com o Brexit, as atenções inevitavelmente se voltam para ele. Ainda assim, acho difícil que leve o prêmio depois de Bob Dylan.

Rubem Fonseca: sim, eu quis inserir um brasileiro na lista. Mas não é só para empurrar um nacional aqui que estou pondo Fonseca. Estamos falando de alguém que realmente tem repercussão internacional. Com sua prosa arisca e violenta, o escritor é uma das nossas vozes mais conhecidas lá fora.

Alberto Costa e Silva: não fosse a minha desconfiança de que o africanista não foi indicado ao Nobel, eu o colocaria fácil na rea-lista. Seus escritos sobre a África são considerados obras de peso, mas o fato de não ser um ficcionista o afasta dos holofotes. O Prêmio Camões já foi uma surpresa. Quem sabe…

Thomas Pynchon: um dos meus prediletos! Fragmentária e mimetizando inúmeros estilos no mesmo livro, sua obra é um monumento ao ruído informacional da segunda metade do século XX e oferece releituras históricas hilárias e anacrônicas. Só não está na contraparte realista por ser estadunidense.

Les Murray: o poeta australiano é um dos eternos grandes nomes. Não aposto nele por dois motivos. Primeiro, por ser um autor de língua inglesa. Segundo, ser conservador. Suas declarações são para lá de polêmicas e levariam a Academia a receber uma enxurrada de críticas. Apesar disso, é um poeta de peso.

Karl Ove Knausgaard: o único porém é ainda ter 48 anos. Há casos de premiações de escritores com menos de cinquenta anos, mas todas são mais antigas. Sua coleção autobiográfica de seis volumes é considerada um dos grandes feitos literários recentes.

Quem vencerá?

Em breve descobriremos… Façam suas apostas!

José Severino

 

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